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sexta-feira, 11 de maio de 2018

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Atirem-me pedras
E que tudo se desfaça
Em escuro e pó,
Fique só o lume
Se quebrem as loiças
E os putos não tenham dó.

Reguem-me os tocos
Onde os passáros penicam
E quedam depois de ficar,
Onde os estúpidos nidificam
E não há mais para onde remar.

Regulem-me pela Austrália,
Dêem-me corda para preguiçar
E que se queime essa porra
E que os velhos a venham buscar
Cá não fico
E quem quer, que morra.


André Moreira

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Conde

Sou insignificante.
Não tenho esperança.
Sou mais um número.
Uma preocupação momentânea.

Sou um incómodo.
Impressiono.
Mostro o que pode ser.
Escondem-me.

O que fui,
Ninguém se recorda.
De onde vim,
Ninguém se lembra de mim.

Para onde vou,
Não vou mais pensar.
Vou continuar insignificante,
Deixar de incomodar.

André Moreira

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Dor

É simples,
Tudo o resto.
Dói-me só a saudade.

Escreve-se a vida,
Tolda-se a mente,
Corre a estrada
Sem importar o destino,
Respira-se o oxigénio,
Está-se noutro lugar,
Dorme-se
Para não ver o tempo passar.

Abre-se a pele,
Brota sangue
De onde não se vê,
Quebram-se ossos,
Fecham-se os olhos,
Esquece-se a realidade
E nada mais se diz
Senão a verdade...

"É simples,
Tudo o resto.
Dói-me só a saudade."

                                                                    André Moreira

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Luta

Navega na face o saber
De quem vendo
Não percebe
O que é
E o que pode ser.

É inerte a demora
De uma sensação
Que perdura, teimosa,
E da satisfação
Não vê a hora.

Impossivel é perder
Essa luta desenfreada
Numa vontade de vencer
Que quem vê
Não consegue entender.

Pensar...
Que o fim
Ou o deixar
O impedir
Ou importunar
Não alcança o ganhar,
Continua sem pestanejar
E perdura,
Nessa vontade que é amar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Péssimo

Em cada cidade,
Na calçada de cada rua,
Há um pouco desse horizonte
Onde para o meu coração é feita a ponte.

No asfalto quente
E nas linhas da estrada
Sente-se o suspiro
Do peito onde me retiro.

Entre a rotina desgraçada,
Nos segundos de tédio,
É desejada a presença
Daquilo que faria a diferença.

Sobre a insuportável cama,
Na áspera face da almofada,
Corre a voz calada
De quem não quer mais nada.



André Moreira

sábado, 8 de outubro de 2016

Renovar

Surpresa é dizer que não,
Num segundo, calar o coração
E fazer de tudo para desacreditar
Que, a cada dia, da paixão há o renovar.

Ingenuidade é um talvez,
Sobre o que o outro disse ou fez.
É uma tentativa de seduzir
Apenas para não deixá-lo partir.

Inevitável é a certeza,
De que, apesar da tristeza,
O outro irá voltar
E que o seu único desejo é ficar.

André Moreira