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terça-feira, 22 de julho de 2014

Nem Preciso de Me Drogar

Lá fora está quente
E dentro de mim também
Podia estar frio ou morno,
Mas, a essas temperaturas,
Poupo-as e guardo-as
Para quando penso no futuro.

Não no futuro que sorri,
Antes nas possibilidades negras
Que existem e me assombram
Porque penso e quem pensa teme
E quem não teme não é homem
E se sou homem temo
Por isso continuo
E os anos vindouros que não riem
Assustam-me, simplesmente.

Certezas tenho-as muitas,
Caem na minha mente como chuva
Sei que chego onde quero
Porque, se não chegar, quem sou?
E se os outros chegam porque não eu?
Até as ondas chegam à praia
E o vento sopra nas folhas
E os peixes morrem,
As andorinhas também
Aqui ou no deserto,
Europa
Ou
África.

O que me leva para as profundezas
E me esmaga como se fosse o Evereste
É o que fica pelo caminho.
Ficará a criança
Que quando caía não se levantava do chão
Os anos e as lágrimas,
Os pesadelos terríveis
E estas palavras que escrevo.

Com elas pouco me importo,
Para dizer a verdade,
Nem sei porque escrevo isto,
Foi uma vontade que pegou em mim,
Como pegam as formigas em dez vezes o seu peso,
E me fez escrever efemeridades.

Importo-me com a perda
A tua e a minha
A deles e a dos outros
A dos paralelos e dos carros (pobrezinho) que os pisam.

Sei lá para onde vou
Ou o meu nome
Se fica nas paredes escrito
Ou é raspado do chão como pastilha.
Sei lá quantas vezes vão falar de mim
Ou lembrar-se do esforço que fiz
Apenas para não se esquecerem.

Vão lembrar-se do amor que senti?
Do que sofri e ri?
E depois de ti?
Que vão dizer de ti e de mim
E até dos outros todos
Porque até importam mais ou menos.

Vou ser enterrado e para quê?
Preferia ficar onde me vissem apodrecer
E assim ao menos provocava reacções
E depois dava-te boleia
E provocavas reacções também
A memória não se apagava
E o nosso cheiro a podre
Tinha um acidente,
A meio caminho,
Mas ao menos ficava lá
Num nariz qualquer
E ficava contigo.

André Moreira

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